terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sobre a questão da socialização

 A três meses estou tentanto escrever exatamente isso e não consigo porque quando vejo estou falando de minha socialização apenas dou a volta no mundo, me reviro com conceitualizações complexas para tentar chegar ao que Jéssica Milare já havia chegado a dois anos com clareza e exatidão. Segue abaixo na integra o texto dela:

por Jessica Milaré http://travestimarxista.blogspot.com.br/2015/02/sobre-as-limitacoes-do-feminismo-radical.html

uarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Sobre as limitações do feminismo radical

Enquete no site A Capa mostra, em números, a
alienação transfóbica histórica: pessoas trans ainda são
pouco conhecidas e muito indesejadas.
feminismo radical éuma vertente do feminismo que surgiu nas décadas de 1960 e 70 em uma época de várias mobilizações que são conhecidas como a Segunda Onda do Feminismo. Essas mobilizações surgiram no mundo todo e reivindicavam o fim da desigualdade de gênero entre as mulheres e os homens, o direito ao voto, a legalização do aborto, o fim da violência contra a mulher, entre outros. O feminismo radical é, portanto, uma corrente feminista que se originou nas lutas. A sua principal referência teórica foi elaborada por Simone de Beauvoir em 1949.

É impossível não reconhecer a importância do papel teórico, político e histórico que tiveram as teorias feministas radicais para desvendar e denunciar o machismo na nossa sociedade. Por outro lado, também é impossível não reconhecer que elas têm sérias limitações históricas. Se há décadas atrás essa corrente tinha um papel fundamentalmente progressista, hoje acredito que, infelizmente, quando se refere à questão trans, uma parte dela passou para o lado do conservadorismo. Por quê?

A alienação LGBTfóbica histórica

Pintura de Theodor de Bry retratando
"sodomitas" sendo devorados por lobos (1594).
Como já discuti em outro texto, existe uma alienação LGBTfóbica que foi construída durante milênios e que prega que não existem pessoas LGBTs. Em outras palavras, uma ideologia que prega que todo ser humano é naturalmente heterossexual e cisgênero desde o nascimento. Para criar essa ilusão, ao longo de milênios, as classes sociais dominantes (senhores de escravos e de terras, monarcas, imperadores, nobres, membros do clero) realizaram, ao longo de milênios, um verdadeiro genocídio, usando para tal seu domínio sobre o Estado e, consequentemente, sobre as forças armadas e seu sistema de "justiça".

Alguns mecanismos criados para realizar o genocídio histórico também serviram de base para o machismo. Um exemplo bastante simples é a perseguição às "bruxas" durante a Idade Média. Qualquer mulher (ou: pessoa reconhecida socialmente como mulher) e que fugisse aos padrões rígidos de feminilidade era considerada bruxa e levada à fogueira. A criminalização da "sodomia", por outro lado, (que era entendida como um tipo de promiscuidade) também serviu para condenar à morte qualquer homem (ou: pessoa reconhecida socialmente como homem) que se recusasse a aceitar seu papel masculino.

"Não fale de mim como se fosse uma mulher"
diz o personagem trans "Megillus" na estória
do escritor grego Luciano, séc. II.
Quantas histórias de pessoas trans foram
apagadas dos livros?
Em contrapartida ao genocídio, houve também uma perseguição ideológica. Os textos históricos que denunciavam a nossa existência foram alterados, tiveram seu acesso restringido, não foram preservados ou foram intencionalmente destruídos. Tudo isso em nome da "moral cristã", ou melhor, em nome da moral da dominação de classe.

A perseguição também se estendeu a religiões e culturas pagãs, muitas das quais reconheciam e aceitavam a existência de LGBTs. Quando o homem branco (isto é, o homem branco, heterossexual e cisgênero) escravizou os povos negros e indígenas, isso foi feito também a partir da perseguição de sua cultura, incidindo com sua religião e seus exércitos para forçar essas tribos a deixarem sua "perversidade", o que inclui negarem a existência de pessoas trans. Muitas tribos indígenas e africanas que costumavam ter, em seu seio, várias sacerdotisas travestis, hoje em dia, já não têm mais.

Se observarmos a estrutura patriarcal que a sociedade tomou durante esses milênios, fica evidente porque era necessário criar a alienação de que não existem LGBTs: porque LGBTs não se encaixam na concepção tradicional de família (seja no sistema escravocrata ou no sistema feudal). Ao longo da história, vemos diversos exemplos onde uma sociedade dividida em classes tenta, por causa das pressões sociais, incorporar um ou outro setor LGBT, mas isto sempre se dá de forma limitada.

A teoria de Beauvoir e suas limitações


A teoria de Beauvoir e as teorias feministas radicais não superaram a ideologia LGBTfóbica, principalmente no que se refere às pessoas trans. Pelo contrário, adaptaram-se à transfobia.

Beauvoir construiu uma teoria que é branca e cisgênera, pois assim era toda a ciência disponível em sua época. Essa teoria ignora que existiam e sempre existiram pessoas transgêneras. Por conta disso, ela perde de vista vários fatos que alteram significativamente alguns pontos de sua teoria. Sua teoria é falha e, por isso, precisa ser criticada em seus pontos fracos, o que não significa que ela tenha que ser descartada. Judith Butler, que elaborou a teoria que é base para a corrente transfeminista, na minha opinião, cometeu um erro ao jogar fora praticamente toda a teoria de Beauvoir.

Ao longo das últimas décadas, as feministas radicais foram forçadas pelas circunstâncias a deixar de ignorar nossa existência. É preciso salientar que algumas feministas radicais reconhecem que não podem tirar conclusões precipitadas sobre as pessoas trans porque admitem que nossa sociedade é transfóbica. O nível desse reconhecimento varia. Mas uma grande parte toma uma posição conservadora, nem sequer admitindo a possibilidade da teoria de Beauvoir estar errada em alguns aspectos. Pelo contrário, agarram-se acriticamente à concepção de que o gênero é um sistema imóvel de castas e que contém apenas duas castas.

Em defesa do materialismo dialético

O estudo materialista da realidade precisa ser feito de forma dialética. A estrutura patriarcal da sociedade não é imutável, infalível e nem homogênea. Por mais que ela tenha traços fundamentais que se conservam, ela muda de forma conforme o sistema sócio-econômico, as tradições culturais, as intervenções políticas, os desdobramentos da luta de classes, a região, as características sociais dos sujeitos, etc.

A sociedade separa as pessoas desde antes do nascimento conformeseu aparelho reprodutor. Até hoje, em sociedades não-capitalistas, essa separação é uma necessidade material. Na sociedade capitalista, essa separação é feita por motivos ideológicos. [Voltarei a esse assunto em outro texto]. Com base nessa separação, as pessoas são, desde o nascimento, educadas para pertencerem a um ou outro gênero e a cumprirem os papéis socialmente estabelecidos. Isso é o que denominamos socialização de gênero, que pode ser (na nossa sociedade) feminina ou masculina. Entretanto, a socialização assume diferenças importantes nos diversos setores da sociedade.

Cito um trecho de um texto sobre interseccionalidade:
Podemos nos reportar à experiência da escravização para visualizar melhor essa relação: se por um lado, mulheres negras eram desumanizadas e “masculinizadas” ao lado dos homens negros, e cumpriam todo o trabalho na mesma proporção e intensidade que os homens, desarticuladas assim do lugar de fragilidade atribuído às mulheres cis brancas debaixo do patriarcado; quando era conveniente que elas fossem exploradas e reprimidas como mulheres, elas o eram. O papel dos estupros, violações sexuais, como expressão da manutenção do poder econômico do senhor de escravos sobre o trabalho feminino exemplifica essa relação. [...]

O lugar das mulheres cis e trans negras e não-negras na sociedade de classes guarda diferenças importantes do lugar das mulheres cis brancas. Se para as mulheres cis brancas, o trabalho foi um direito adquirido, para as mulheres cis negras o trabalho sempre foi uma realidade imposta, começando pela escravização.
A socialização por gênero assumia um caráter diferente para o povo negro quando este era escravizado. Os traços essenciais dessa diferença permanecem (e também se alteram) na sociedade atual uma vez que o racismo persiste. E para as pessoas trans? Qual caráter a socialização de gênero assume?

Para justificar uma política transfóbica, muitas feministas radicais fazem uma análise mecânica (isto é, anti-dialética), dizendo: "As pessoas que tiveram uma socialização masculina são homens, as pessoas que tiveram uma socialização feminina são mulheres." A partir desta "lógica" se conclui que as mulheres trans e as travestis são homens, que os homens trans são mulheres, que pessoas com gênero não binário são mulheres ou homens conforme o aparelho reprodutor com o qual nasceram.

Mas a realidade segue sua própria lógica e não a lógica mecânica e exata dos livros! A realidade não segue as regras da lógica formal.

Uma das primeiras características da socialização é ensinar as diferenças entre os sexos (como se fossem iguais aos gêneros e iguais às diferenças biológicas relacionadas ao aparelho reprodutor). Ao mesmo tempo, é ensinado às "meninas" que elas são meninas e aos "meninos" que eles são meninos. Em outras palavras, as crianças são convencidas a aceitar a identidade de gênero que lhes é designada. Acontece que uma parte das crianças (uma ínfima minoria, mas que não pode ser ignorada) se recusa, às vezes desde muito cedo, a aceitar a identidade de gênero que lhes é designada, na maioria das vezes se identificando com o gênero oposto a ele. Às vezes isso se dá de forma aberta, às vezes em segredo ou até inconscientemente.

Para a maioria das crianças, a identidade de gênero é adquirida sem conflitos internos ou externos. As próprias crianças reivindicam ser "meninas" ou "meninos". É evidente que a socialização de gênero tem outras características que se tornam opressoras para as meninas, para as crianças negras, para aquelas que tentem fugir dos papéis tradicionais de gênero, etc, mas para a maioria a identidade de gênero não é opressora por si mesma. Pelo contrário: ela é aceita como natural, biológica, de forma que a maioria as pessoas têm a impressão de que ela nem sequer existe. Mais uma vez nos deparamos com a alienação transfóbica histórica.

Após ter sido isolada e passar por
várias terapias que tentavam
"curá-la", Leelah cometeu suicídio
no dia 28 de dezembro.
Em sua nota de suicídio, dizia:
"Consertem a sociedade. Por favor."
Quando a identidade de gênero entra em contradição com a designação de gênero, a socialização de gênero tem desdobramentos opostos. Para uma menina trans, por exemplo, a socialização masculina é uma negação de sua própria identidade e coloca ela em oposição com o ideal masculino que a sociedade lhe impõe. Isso, na maioria das vezes, se desdobra em uma violência extrema. Conflitos verbais, constrangimentos, ridicularizações, isolamento social, agressões físicas e psicológicas, castigos que duram meses, terapias de "cura", expulsão da escola, expulsão de casa, espancamento até a morte, etc, são apenas alguns exemplos dos possíveis desdobramentos dessa contradição.

Isso faz com que travestis sejam vítimas da violência na escola e em suas casas, que as expulsa de casa, da escola, do mercado de trabalho e as leva à prostituição como única opção. Isso é socialização masculina? O fato da grande maioria das travestis ser empurrada à prostituição, muitas vezes desde a adolescência, mostra que nós somos vítimas diretas do machismo! Com respeito aos assédios que enfrentamos na rua, aos estupros, às chantagens e perseguições policiais tipicamente enfrentada pelas prostitutas, a criminalização da travestilidade, aos crimes de ódio que se desdobram em torturas, espancamentos e assassinatos, isso tudo contradiz a concepção mecânica de socialização de gênero.

Não existe uma socialização de gênero homogênea, nem para pessoas trans, nem para pessoas cis. Teorias são muito importantes para que seja possível compreender a realidade, mas a realidade é muito mais complexa do que qualquer teoria humana. Cabe a nós adaptarmos a teoria à realidade, que está em constante mudança, e não tentar adaptar a realidade a uma teoria estática. A teoria de Beauvoir, em sua forma estática, não consegue compreender a transgeneridade. A teoria de Butler, que é dialética, mas idealista, a meu ver, se baseia em elementos que só existem em regiões mais "desenvolvidas" do capitalismo atual e que mostra fraqueza quando aplicada à periferia, aos países "subdesenvolvidos" e às sociedades não-capitalistas. Apenas uma teoria de gênero que seja materialista e dialética seria capaz de incorporar os pontos fortes das teorias de Beauvoir e de Butler e explicar, em essência, a transgeneridade em sua diversidade histórica e social.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Transgeneridade e Biologia



  • A biologia não é o destino. O que se entende socialmente por mulher não é a vagina. E por que negar que as trans são mulheres? e como tal oprimidas pela sociedade patriarcal que as toma como fetiche e objeto sexual, que as submete ao poder do macho e as mata, fora os assédios, estupros, etc. Você pode dizer "mas elas quiseram ser assim" e digo que nenhuma pessoa quer passar por essas situações. Não se nasce nem se escolhe ser mulher, torna-se mulher e o inimigo das feministas e transfeministas é o mesmo patriarcado opressor, o machismo, a discriminação e a violência contra mulheres cis e mulheres e homens trans. As trans não são inimigas do feminismo estão do mesmo lado do front e chamar uma mulher trans de homem se valendo da biologia é um insulto, a biologia não está livre de ideologia e até hoje tenta comprovar uma diferença "natural" entre homens e mulheres para, falando do cérebro ou hormônios, dizer que a mulher é inferior. Ha pouco tempo a mesma biologia afirmava que as mulheres eram loucas ou que não possuíam orgasmo. Lutemos por mais mulheres na ciência e que as trans possam terminar sua educação formal, porque a maioria ainda é expulsa de casa e caem em um estado de prostituição compulsória.
  • Nasce-se com pênis, vagina ou em condição intersexual, mas essa não é a natureza do homem e a mulher, o homem e a mulher nascem da marcação, somos nós que chamamos as pessoas com vagina de mulher e as pessoas com pênis de homens e sobre esta marca criamos meninos para serem dominadores e meninas para serem submissas, primeiro marcamos o "homem" e a "mulher" depois os enquadramos nos papeis de gênero. Olhamos os outros animais os generificando nos mesmos padrões que são impostos a nós, então dizemos que a hiena possui comportamento "masculino" porque é maior, mais forte se impõe sobre o "macho". Há tribos que possuem 5 gêneros na América do Norte, no interior do Mato Grosso há tribos onde os possuidores de pênis são considerados frágeis e dentro dos nossos padrões poderiam ser considerados "as mulheres", porém não são nem homens, nem mulheres, são outras denominações que fazem parte da imagem de mundo da tribo. Se nossa cultura dominante impõe que homens possuem pênis e mulheres possuem vagina, os povos que não partem desta lógica o que são? Selvagens? Não, e a própria biologia já disse que apenas existia um sexo, o masculino, sendo a mulher um homem invertido, agora afirma a existência de dois, porém a única coisa que a biologia pode dizer é se há um pênis, uma vagina ou se é intesexo, o resto, e o resto é tudo, são nossas imposições e a biologia não está imaculada de nossa ideologia e reflete a ideia ocidental dominante.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Ser mulher/raça e generidade



Nem toda mulher tem vagina, algumas tem pênis.
Nem toda mulher é XX, algumas são XY, XXY, X0 entre várias variações cromossômicas
Nem toda mulher se atrai por homens
Nem toda mulher tem seios grandes e vive maquiada
Nem toda mulher usa saia e vestido todo dia, muitas são despojadas.
Nem toda mulher está sempre com as unhas feitas
Nem toda mulher chora assistindo um filme piegas, mas eu choro
Existem mulheres fortes, fracas, gordas, magras e nada as torna menos mulheres
A mulher arquetipa do início do séc XXI é diferente da do Séc.XVI
Esses arquetipos são racistas, classistas, heteronormativos, cissexistas, binatistas, eurocêntricos e machistas
Mas são só arquetipos

Ser mulher não é ser um Arquetipo
Tão pouco um achismo
É uma experiência que iguala enquanto gênero
E que não se anula, mas se completa na diversidade

A mais de 100 anos Sojourner Truth proferiu o discurso "E eu não sou uma mulher?" pois na união do movimento sufragista e abolicionista a mulher era vista como apenas a branca do norte. Hoje revirando a rede vejo uma figura "nem todas as mulheres tem vagina" 1080 pessoas curtiram, mas 12 comentaram desvalidando a imagem "se tem penis é homem". Mês passado em uma conferência sobre formação etno-patriarcal da sociedade brasileira um homem branco interrompe a fala para protestar "viemos aqui para falar de mulher ou de preta?" é triste que mais de 100 anos depois o corpo ainda sirva para desvalidar a generidade feminina. Se o homem universal dos direitos humanos é branco, do sexo masculino, tem posses, é hetero e cis, essa tendência universalizante serve para decidir quem não é digno de humanidade em uma escala que vai das mansões do jardim Europa às ruas da boca do lixo. Pessoas cotadas com preço variável e algumas valendo muito pouco. Capitalismo patriarcal racista hetero/cisnormativo. Bem, uma tarja estampada no corpo pode dizer não recomendado à sociedade, mas as pessoas deveriam ser pensadas em suas generificações, racializações e todas as caracteísticas que a compõe. Quando uma pessoa Trans diz sou homem/mulher ela está reconhecendo sua generificação e falando, me aceite, existo, e não "você é obrigado a se relacionar sexualmente comigo" . De resto há muita falácia, se os negros estão aquém da humanidade até hoje as pessoas trans não tem direito de reconhecerem seu gênero e devem se igualar aos padrões sociais vigentes pela marcação genital de gênero. Se a biologia não é o caminho e não se nasce mulher, se torna, se há sociedades com 3 ou 5 gêneros oficiais, façamos um transfeminismo de validações e luta por existência. Existência é resistência.


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O T da Questão

Há muita discussão dentre o meio LGBT que se dá em torno da questão do T ou dos Ts sendo Transexuais, Travestis e Transgêneros, pois Lésbicas, Gays e Bissexuais são identidades marcadas pela orientação sexual, no entanto os Ts se marcam pela identidade de gênero. Gênero por outro lado é uma categoria que passou a ser combatida e atacada por setores conservadores como uma ideologia corruptora que deve ser retirada dos planos de ensino e censurada, mas o que é gênero afinal? O que faz o gênero ser uma categoria tão perigosa?

Mas afinal o que é gênero? É de comer, de vestir ou de pôr na estante?


Quando uma criança é identificada com determinada configuração genital ela é marcada, o peso de ser chamado menino ou menina não é somente uma nomenclatura, mas o princípio de uma construção social, expectativas e todo um direcionamento, se e menino vai vestir azul, seus brinquedos remeterão à guerra, aos esportes, ao ímpeto ativo, será incentivado a liderar, competir, tomar a voz; no entanto se for menina vai vestir rosa, brincará de boneca, será condicionada a ser delicada, afetiva, maternal, o peso do menino ou menina imporá restrições, “menina não senta de perna aberta”, “deixa de chorar, isso não é coisa de menino”, “aperta a mão como homem”, até que o menino se torne homem e a menina mulher, se vistam, ajam e pensem como tal.
Essa estrutura, no entanto, é uma estrutura de poder, a racionalidade, direção, liderança atribuídas aos homens servem para a atribuição da mulher como um outro, irracional, passivo, que deve se sujeitar. A mulher é sujeitada para que o controle reprodutivo sobre ela reproduza a família, centro de preservação da propriedade e do poder tradicional, a não participação de seu papel social, faria da mulher “menos mulher”: a “solteirona” e a “puta”; existem à margem deste mesmo sistema de poder masculino, como integrantes, subordinadas, oprimidas e exploradas, mas longe do pedestal de “bela, recatada e do lar”. A lógica patriarcal por outro lado se expõe na desigualdade salarial entre homens e mulheres, na interiorização da mulher e na sujeição pela violência aplicada sobre ela, basta ver as estatísticas sobre a violência doméstica e as mortes provenientes da imposição da dominação. Todo poder é um poder sobre o corpo, esse poder aparece na vigilância e agressividade da polícia contra os jovens negros de periferia, no assassinato contínuo de travestis e transexuais, na violência contra a mulher marcando sua sujeição dentro da família.

Por traz de todo controle existe a manutenção de uma norma, norma essa que serve para preservar as bases da estrutura de poder vigente. Essa norma passa por um condicionamento heteronormativo que condiciona indivíduos a se atraírem apenas pelo sexo oposto, uma centralidade genital reprodutiva, o sexo como instrumento de reprodução e as relação afetivas com foco na reprodução, a negação da busca do prazer, criando corpos dóceis e submissos, prontos para privações e sofrimentos impostos. Essa estrutura se solidifica, pois, o indivíduo reprimido reconhece as gratificações sociais como produto de sua submissão e reproduz essa mesma repressão socialmente; assim a mãe submissa ao marido ensina a menina a se submeter também. A essa estrutura heteronormativa se impõe uma estrutura cisnormativa, na naturalização de relações sociais, fundamentando-as em bases biológicas, assim o bebê que nasce com pênis será um homem, terá um raciocínio lógico-matemático, um pré-disposição à engenharia, aos esportes, gostará de futebol, achará a poesia uma futilidade, a arte não o sensibilizará. A heterocisnormatividade passará a percepção de que o mundo sempre foi e sempre será assim, homossexuais e transgêneros fogem à norma, então não deveriam existir, para que a norma exista, porque eles são a expressão de que esses padrões de condicionamento normativos não são totalmente eficazes e totalitários. Quebrar essa norma é quebrar uma estrutura de poder, e isso leva à uma reação punitiva da sociedade adaptada à essa norma, que por se adaptar possui privilégios que validam sua auto-repressão, e a mobilização mesmo de forças públicas que são a expressão desta própria dinâmica social. Igreja, partidos, polícia e escola fazem parte desta estrutura repressiva.


O T e o Q da questão


O que incomoda nxs transexuais e Travestis? Qual o T da questão? O fato de terem se constituído na assimilação de padrões de gênero diferente do gênero designado ao nascimento. Processo consciente/inconsciente de condicionanamento/anticondicionamento. A patologização da transexualidade se ancora neste desvio de norma imposta o que a comunidade médica chamaria de disforia de gênero, o problema aqui impera justamente na patologização daquilo que destoa da normalização do gênero, a norma é tida como natural, ou fundada em uma suposta essência e o que se configura como negação desta norma aparece como patologia, segundo os médicos xs transexuais são loucxs, possuem um transtorno psiquiátrico e para tanto o mesmo discurso alimenta discursos como a cura gay. Por outro lado a travesti aparece como um gênero próprio marcado pela marginalização, a figura da travesti está relacionada à classe social, ao status marginal, à prostituição, lidas como promíscuas, degeneradas, corruptoras.
Mas será que a transexualidade se manifesta apenas na assunção de um polo oposto? Se pensarmos o masculino e feminino como opostos em uma escala não estaria a maior parte das pessoas em posições intermediárias nos padrões ditos masculinos e femininos? Em que aspecto toda mulher é passiva, emotiva, sensível, maternal? A norma é totalmente eficaz ou este padrão impera como uma ideologia imposta que limita individualidades para que se enquadrem? Em outras palavras até que ponto esse padrão é uma expressão da realidade de como se constituem os gêneros ou uma estrutura imposta que enquadra e solidifica estruturas de poder? Abro aqui o Q da questão. A palavra Queer em inglês literalmente se traduziria como “esquisito”, porém com uma denotação pejorativa, abarcando principalmente generificações destoantes do padrão binário masculino/feminino. O Movimento Queer nos EUA buscou a unificação destas pessoas destoantes do padrão binário em torno do aspecto particular de suas opressões daí o termo LGBTQIAP+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis, Transgêneros, Queer, Intersexuais, Assexuais, Pansexuais e outros), o movimento Queer conseguiu agregar uma gama de pessoas destoantes até então não abarcadas no LGBT, pessoas com identificação com ambos os gêneros, pessoas com identificação parcial com um gênero, pessoas que não se identificam com os padrões de nenhum e pessoas que buscam outras identificações. Estima-se que cerca de 40% da comunidade trans nos EUA seja formada por pessoas não binárias. No Brasil não temos estimativa precisa, afeminados, bofinho, caminhoneira são expressões que designam pessoas destoantes dos padrões estabelecidos de gênero embora não possuímos ainda a unidade de uma comunidade Queer.

O que a consciência do não-binarismo nos trouxe é o reconhecimento da multiplicidade da construção do gênero na variedade infinita de possibilidades apesar da norma binária cisnormativa. O reconhecimento do degrade da comunidade trans quebra a aparência de normalidade da estrutura binária apesar de muitas pessoas não-binárias não se reconhecerem como tal e não se afirmarem como trans, já que a norma binária reconhece apenas os estremos de um padrão como masculino e feminino, o que não significa que estas pessoas não existam ou não sofram opressões e preconceitos específicos por quebrarem a norma cisnormativa. Outro dado de discriminação pode ocorrer dentro da comunidade trans, a busca de umx trans autênticx e o não reconhecimento da comunidade não binária. Afirmações como “você não é trans de verdade” ou “você não é trans porque não possui disforia com seu corpo”, “você é só um homem vestido de mulher”, são expressões correntes ancoradas no binarismo de gênero.


Se Gênero é identidade, meu gênero é Lady Gaga. 



Críticas conservadoras em relação às recentes discussões em relação às teorias de gênero tentam invalidar e anular pessoas trans dentro da afirmação de que gênero é só identidade, então seria algo que só existe na cabeça das pessoas, assim como umx transexual sofreria de disforia de gênero, pessoas de gênero fluído, que não possuem um centro fixo na identidade de gênero e fluem entre as possibilidades sofreriam de transtorno de múltiplas personalidades. Bem identidade não é algo abstrato e irreal, mas justamente a identificação do que se é, o como se constitui como pessoa, o como se vê, se sente e se interage com o mundo social em que se vive, assim como das opressões que se sofre por ter se constituído como se é. J. Butler usa o termo performace de gênero e afirma que o gênero é performático no sentido que ele engloba toda uma gama de maneiras de pensar, agir e sentir que são aprendidos e executados socialmente. Neste caso a performance da mulher cisgênero, fruto de um condicionamento cisnormativo, interiorizado de maneira inconsciente e socialmente normatizada não é tão diferente da performance da mulher transgênero, que se formou em processos desviantes da norma e de maneira mais consciente começa a performatizar o gênero feminino, porque não existe uma mulher verdadeira, já que a mulher é uma construção social imposta sobre pessoas com configuração genital ovariana, fazendo valer a afirmação de Simone de Beauvoir de que não se nasce mulher, torna-se mulher.

Ser gay tudo bem, mas não precisa ser afeminado!




A cisnormatividade e o binarismo são aspectos ideológicos que se impõem sobre indivíduos enquadrando-os em formas pré-moldadas no que diz respeito à sua expressão de gênero, o sentido desta imposição é a normatização e naturalização dos padrões de gênero, assim o uso de maquiagem aparece como destino natural e característica específica de pessoas nascidas com vagina, enquanto a elas é negado o direito de deixar os pelos do corpo “ao natural”. A diferenciação dos gêneros é importante para a restrição heteronormativa do desejo, crivar uma barreira entre o masculino e feminino, condicionando corpos para se direcionar desejos em fins reprodutivos, restringindo o que Freud chamou de polimorfismo sexual, instaurando o controle reprodutivo sobre a mulher e mantendo a desigualdade e opressão de gênero. Desta maneira a quebra destas normas, pelo não enquadramento, no que diz respeito à construção do gênero de indivíduos particulares, faz com que estes sejam coagidos a negarem essas expressões, a ação social normatizadora se manifesta da reação do riso ao assassinato brutal, e a imposição destes padrões pode ser notada mesmo na comunidade LGB, uma das expressões é “ser gay tudo bem, mas não precisa ser afeminado”. Qual o problema do “afememinado”? do homem que teria características consideradas socialmente “femininas”? A voz fina, os “trejeitos”, a “Desmunhecada”, seriam características que o tornariam “menos homem”, mais próximo da “mulher”. Em uma sociedade misógina, que inferioriza e odeia o “feminino”, este homem além de “inferior”, por se igualar a uma mulher seria um “traidor do gênero”, pois quebraria a lógica binarista e a imagem de naturalidade imposta, de que homens são fortes, grosseiros, utilitaristas, impositivos, brutos entre outras características. O “transviado”, “aviadado”, “diferente”, “afrescalhado” é a prova que a “masculinidade” não é um dado biológico/natural, e ela se quebra “como um cristal”. O “afeminado” é a representação de outra via, de outro caminho, e a imagem de liberdade que gera medo e insegurança, pois o homem não é um gênero que existe em si, no reconhecimento de suas opressões, mas na negação do que não é. O masculino se afirma na negação do feminino, a inferiorização do feminino é o coroamento do poder masculino, o homem “afeminado” quebra essa certeza tida como “natural” de uma superioridade de gênero, representada pelo masculino, e torna visível como a masculinidade é frágil.


Se gênero é poder, a transgressão do gênero é um ato revolucionário em si.



No momento que pessoas trans, binárias ou não-binárias, saem às ruas são elas próprias que quebram a lógica cisnormativa, o que era “normal” demonstra não ser tão normal assim, aquilo que parecia uma estrutura fixa e natural, tem suas bases corroídas, abre-se o caminho para que outras pessoas também se demonstrem, não trata-se aqui de criar gêneros, os gêneros existem e tornar visíveis suas múltiplas expressões é libertar-se de padrões normativos e enfrentar a sociedade que se privilegia dessas relações binárias e desiguais entre homens e mulheres, abala-se um dos centros do poder masculino e por isso a agressão, o repúdio vem principalmente dos homens. Se gênero é poder, a transgressão do gênero é um ato revolucionário em si.

Referencias bibliográficas
Livros
Beauvoir, Simone O Segundo Sexo, segunda edição, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2009.
Butler, Judith Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2003.
Foucault, Michel A história da sexualidade: Volume I- A vontade de Saber,terceira edição, paz e terra, Rio de Janeiro, 2015.
Marcuse, Hebert Eros e Civilização: Uma interpretação filosófica do pensamento de Freud , sexta edição, Zahar editores, Rio de Janeiro, 1975.
Artigos
Matsuno, Emmie Você é um menino ou uma menina? NÃO: Vivendo fora do Binarismo de Gênero https://sexusufs.wordpress.com/2016/06/15/voce-e-um-menino-ou-uma-menina-vivendo-fora-do-binarismo-de-genero/
Barbosa, Bruno Cesar “Doidas e putas”: usos das categorias travesti e transexual Sexualidad, Salud y Sociedad REVISTA LATINOAMERICANA ISSN 1984T6487 / n.14 T ago. 2013 T pp.352T379 / Dossier n.2 / Barbosa, B. / www.sexualidadsaludysociedad.org
Vídeos
Para Tudo
Afeminados https://youtu.be/nSfuXJcbN4Y
Café com Luiza
O que é “passabilidade”? https://youtu.be/mweJ-hRklns
Hugo Nask
DAS BATATAS ( GÊNERO NÃO-BINÁRIO) FT. XISTO https://youtu.be/NNPHHGBt9kI
"-QUE MERDA VOCÊ É ?!" | MINHA IDENTIDADE DE GÊNERO NÃO-BINÁRIO https://youtu.be/IZ2TcvhygQ0
Chá dos 5
Gênero não binário https://youtu.be/ELtAbIhS9XM